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Notícias

05 setembro 2015

Uma crônica sobre os 10 meses da chacina de Belém


O que eu lembro de meus irmãos não cabe no editorial

 

 

 Por Kleyton Silva,

Assessoria de Comunicação do Movimento de Emaús

Meus irmãos ficaram onde nasceram e cresceram.

Pedro é muito vaidoso. Adora usar boné. Quando vai sair, vem logo alinhando a aba e pergunta pra mãe: “Tô bonito, Dona Fátima?” E sai às carreiras pro trabalho. Oito horas por dia, seis dias por semana. Na maior parte da semana é assim: ele atrás do balcão do supermercado. E, quando está de folga, já vai reunindo a galera pra coleta da arena. Adora jogar bola - de boné, também, é claro!

Em junho, não tem pra ninguém! Tão certo quanto ouvir Balão Dourado do Chiclete com Banana em todo canto de Belém, é tu chegares na Terra Firme durante a quadra junina e encontrar meu segundo irmão, o Luizinho, no meio daquela moçada vestida com roupa colorida. Pode procurar de longe o cara enfiado no chapéu branco, envernizado, com fita vermelha: “Chapéu de puxador tem que ser diferente, que é pra não confundir os integrantes!”, ele diz. Espalhafatoso e líder nato, organiza os Brincantes da TF, há dez anos. A quadra pra ele começa bem antes de junho, tem ano que os ensaios começam assim que acaba o carnaval. Zinho tá sempre pensando na coreografia mais criativa pra apresentar nos festivais. A gente sente a satisfação dele com a apresentação, no jeito como o danado balança o chapéu no ar, saudando o público na despedida.

O mais livre de todos é o Didi. Vive no meio da criançada. Corre aqui, corre acolá e, dalí a pouco, tá ele de novo no meio da turma. Mas o que pega o pequeno pelo pé é ver subir uma pipa no ar. Não precisa ser rabiola com papel de seda colorido, não! Uma sacola da Yamada bem esticada nas talas já faz o moleque rasgar-se todo em satisfação debaixo do sol quente. A mãe chama pra almoçar uma, duas, três vezes e nada. Quem é que recrimina um homem que o próprio Deus achou de eternizar menino? A mamãe chama como se ele estivesse do outro lado da rua, mas eu bem sei que ele está é com os cabelos sacudindo ao vento, agarrado junto de alguma pipa que xinou.

E, por fim, vou contar uma do meu irmão mais velho. De um dos três cômodos da nossa pequena casa, ouvia-se uma voz entoar qualquer coisa como “Oh, insensato destino, pra quê tanta desilusão em meu viver? Eu quero apenas ser feliz ao menos uma vez...”. Depois do verso - era selado! - o pandeiro começava a soar... Era o Zeca. Numa noite, varou a sala e, de repente: “Olha essa batida, pai! Peguei agora. O senhor tem que aprender.” Papai olha pra mão do Zeca, olha pro couro do instrumento: “Não tenho jeito pra isso, rapá!” Quem disse que o menino desiste? Hum!Pega o pandeiro com a mão esquerda e com a direita marca: “Um, dois, três, dois, um, dois, três, dois. Começa com o polegar, assim, pai. Viu? É só manter essa sequência e o andamento e a gente ainda vai fazer sucesso na TF! Escolhe uma música bonita e vai treinando.”

Outro dia, entrei em casa e ouvi o velho balbuciando a homenagem composta por Sérgio Bittencourt para seu pai, o grande Jacob do bandolim: “Naquela mesa, ele sentava sempre e me dizia contente o que é viver melhor...um, dois, três,dois,um, dois,três, dois”. O Zeca ficou todo alegre em vê-lo progredir e sempre que o pai fica impaciente com o exercício, arremata: “Não desiste, pai! Um, dois,três,dois, um dois,três,dois. Segura o andamento!”

No bairro, alguns dias se estendem além das 24horas. E há algumas noites que duram anos para algumas pessoas! Uma dessas longas noites veio para minha família. Quatro de novembro de 2014, a sede de vingança pela morte de um cabo da PM resultou na interrupção de, pelo menos, dez vidas, injustamente e ilegalmente, além de marcar nossos familiares e sobressaltar uma cidade inteira. Dez meses se passaram, nossa indignação não dorme. A ausência do estado fortalece a disseminação de discursos de ódio e vingança, além da sensação de impunidade. Perpetua a lógica da violência contra quem vive na periferia da cidade. Não podemos pactuar com isso.

Repudiamos qualquer ato de vingança, pois queremos que nossa família, nossos bairros reencontrem a paz. Para isso, exigimos que o estado aponte os culpados pela morte de nossos irmãos! Não abrimos mão da justiça!

As relações entre nós NÃO são marcadas pela violência, embora seja quase sempre violenta a relação do estado com nossas famílias e com o nosso bairro. Há mais vida na periferia que as vidas interrompidas pela violência policial.

Nossas vidas, nossas famílias, nossos amigos, nossa maneira de fazer e ser na periferia vão muito além dos estigmas de violência constantemente reforçados pelos conservadores veículos de rádio e televisão. Lembramos, assim, que a nossa luta também é por uma vida digna para aqueles que seguem vivendo nos mais diversos bairros da periferiria de Belém e do país.

Esta é uma narrativa ficcional construída a partir de características de algumas das vítimas da chacina de 4 de novembro de 2014, em Belém do Pará, colhidas através de relatos de seus familiares.

Nós - que seguimos- seremos aqueles a reacender, constantemente, para o estado e suas instituições a inconveniente memória de que sua ação criminosa destruiu famílias, ao interromper a vida de pessoas inocentes.

 

 



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